Lenda da pieira de lobos – Ponte de Lima

Esta é a história de uma bela donzela, condenada para todo o sempre a ser pieira de lobos, e do encontro que teve com o cavaleiro D. Afonso Ancemond.
Lenda da pieira de lobos - Ponte de Lima

D. Afonso Ancemond era um cavaleiro de provas dadas. Companheiro de inúmeras batalhas do Conde D. Henrique, pai de D. Afonso Henriques, o fidalgo residia em Refoios, em terras de Ponte de Lima.

Era reconhecido pelos seus pares pela sua bravura e destreza nas artes da guerra. Em cima de um alazão como que ganhava o Diabo no corpo, se bem que pelejasse ao serviço do seu Deus contra os mouros.
Pois D. Afonso Ancemond era um homem bravo e temido, mas cujos olhos se amanteigavam quando miravam uma mulher formosa. Apaixonado, era como um dócil potro.

Em Refoios, quando os intervalos da guerra o permitiam, exercitava-se na caça, a sua atividade preferida. Não era por isso de espantar vê-lo aos primeiros alvores da madrugada pelo monte da Labruja, em perseguição da sua presa. Nos últimos tempos, ocupava-o um urso que ganhara entre as gentes fama de feroz e traiçoeiro.

Numa dessas madrugadas, quando a Lua Cheia se punha no horizonte, ao invés de dar com o rasto do urso que perseguia, viu-se num repente cercado por uma alcateia de lobos famintos. Sem se deixar amedrontar, saca do seu arco e num ápice faz voar veloz uma seta em direção ao chefe da alcateia, atingindo-o mesmo entre os olhos.

O lobo lança um uivo lancinante mas não cai. Com dois pulos ágeis desaparece entre dois altos penedos, seguido por toda a alcateia. Sabendo que os animais feridos e acossados são os mais perigosos, e tendo responsabilidades para com os servos das suas terras, D. Afonso Ancemond esporeia o cavalo que, habituado às refregas mas com o instinto a dizer-lhe para não ir atrás dos predadores, lança-se num galope descontrolado e acaba contra um dos penedos. O fidalgo cai com o choque violento e perde os sentidos.

Quando, por fim, começou a recobrar a consciência, D. Afonso Ancemond viu-se deitado numa gruta escura, protegido no frio do solo por peles de corça. A olhar para ele, estava uma bela mulher com o lobo ferido a seus pés.

O fidalgo ficou estupefacto com o que viu e quis saber quem era a formosa donzela, ouvindo então uma história de pasmar.

A jovem era a sétima filha de um casal nobre e ao nascer os pais não lhe deram como madrinha uma das suas seis irmãs. Condenaram-na assim a um triste destino e nas noites de Lua Cheia, ela transforma-se em pieira de lobos, ou seja, numa pastora de lobos. Passa então a noite com a alcateia, vendo-a caçar e abocanhar com os dentes afiados as infelizes presas.

Mas disse mais a jovem. Disse ao fidalgo que se cumpria nesse mesmo dia o sétimo ano da sua maldição e que era agora ou nunca que o amor de um homem podia desfazer o encanto e permitir-lhe levar uma vida normal. E vendo nos olhos do homem que acabava de acordar o encanto que a sua visão proporcionava, a jovem convenceu-se de que seria ele o escolhido.

Mas quanto mais D. Afonso Ancemond ouvia menos acreditava. E embora preso aos encantos da donzela, julgou estar perante alguém que o tentava seduzir com uma história mirabolante com o fito de ter acesso à sua posição e fortuna.

E com um gesto brusco afastou a jovem, pensando ser uma impostora e uma falsa. E nem as lágrimas que a donzela logo ali verteu abriram uma brecha no seu coração.

Mas a jovem falava verdade e num ímpeto louco por se ver rejeitada e obrigada a uma vida inteira como pieira de lobos, lançou-lhe uma maldição:

– Maldito sejas! – vociferou – Tal como eu vaguearás por milhares de anos por estes montes e vales na Lua Cheia acompanhado por uma alcateia ululante!

Embora corajoso, o fidalgo sentiu um arrepio na espinha e apressou-se a voltar aos seus domínios. Não se sabe se por consequência do fatídico encontro, D. Afonso Ancemond pouco mais viveu, derrotado por uma maleita misteriosa.

Ainda hoje, quando a Lua se apresenta cheia, ouvirá um cavalgar furioso. Se olhar para o monte Labruja, verá a silhueta de um cavaleiro à desfilada seguido por uma alcateia ululante. É D. Afonso Ancemond que não acreditou no que o seu coração lhe dizia e assim ficou amaldiçoado para todo o sempre.

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